De acordo com Barreto (2002), a Organização Mundial
da Saúde, através do comitê de especialistas em drogas capazes de produzir
dependência, conceitua “vício” como sendo um periódico ou crônico estado de
intoxicação causado pelo repetido uso de uma droga, que traz prejuízos como o
desejo compulsivo de usar a substância, a necessidade de obtê-la, tolerância,
dependência psíquica e física e ainda crise de abstinência quando da privação
da mesma.
Os tratamentos para diferentes acometimentos estão
avançando e a atividade física é considerada uma importante ferramenta para a
saúde pública, tanto para a prevenção de várias doenças físicas quanto no
tratamento de doenças psiquiátricas como a depressão e os transtornos de
ansiedade (PELUSO; ANDRADE, 2006).
Estudos de laboratório têm demonstrado que o
exercício físico pode melhorar o humor positivo e reduzir o humor negativo em
diferentes grupos de idade. Indivíduos que se exercitavam menos durante a
semana percebiam mais fontes de stress do que àqueles que se exercitavam mais.
Existem crescentes evidências de que uma sessão aguda de exercício é relacionada
à redução na ansiedade, sintomas depressivos, humor negativo e ganhos no humor
positivo e bem-estar (GIACOBBI et. al., 2005).
O interesse na interação e relação entre exercícios
físicos e aspectos psicobiológicos vêm aparecendo na literatura desde a década
de 70. A eficácia do exercício físico no tratamento das doenças mentais e na
promoção de bem-estar mental está evidenciada em diversas pesquisas. Além
disso, consistentes efeitos positivos em aspectos psicobiológicos e em diversas
variáveis do bem-estar como humor, ansiedade, auto-percepção, auto-estima além
de resultados positivos em relação ao sono e seus possíveis distúrbios, têm
sido documentados (MELLO; BOSCOLO; TUFIK, 2005).
Em novembro de 2009, o Ministério da Saúde lançou
um pacote de medidas com investimento de R$ 98,3 milhões para ampliar a
assistência a usuários de álcool e drogas no país e melhorar o atendimento de
pacientes com transtornos mentais. A medida habilitou 73 novos Centros de
Atenção Psicossocial (CAPS), criou incentivo financeiro para internações curtas
(até 20 dias) de pacientes em crise e aumentou em até 31,85% o valor das
diárias pagas por paciente internado em hospitais psiquiátricos gerais
(MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010).
Nesse contexto o estudo analisa a percepção do
nível de humor antes e após a sessão de exercícios físicos, com dependentes
químicos em tratamento, pela crescente que o tema dependência química e drogas
tem apresentado no cenário nacional, visto que, não
existem políticas públicas adequadas à área de drogas, existem políticas
repressivas e o modelo repressivo já se provou ineficaz, pois o índice do
consumo de drogas no território brasileiro tem aumentado gradativamente. E
aproveitando-se da problemática em questão, o cenário construído pela política
no Brasil para tratar o consumo de drogas, se transformou em medida
eleitoreira, onde políticos prometem durante suas campanhas a construção de
infra-estrutura capaz de abrigar os viciados para o processo de tratamento. No
entanto, apenas isso não basta aplicar procedimentos e técnicas de tratamentos
corretas, contar com uma equipe de profissionais qualificada é a chave do
sucesso de todo e qualquer tratamento.
2.
Metodologia
2.1. Modelo
do estudo
No que diz respeito este estudo caracterizou-se como
descritivo, onde foram utilizados dados quantitativos, através de um único
instrumento que apresentou valores subjetivos.
É um estudo detalhado de única situação, com
objetivo de determinar dados singulares sobre o sujeito (ou instituição,
comunidade...) analisado, buscando compreender situações similares. É utilizado
na pesquisa qualitativa e quantitativa, podendo ser de três tipos: descritivo,
interpretativo ou avaliativo (THOMAS; NELSON, 2002).
2.2. Participantes da
pesquisa
O grupo participante desta pesquisa foi
composto por 5 homens e 1 mulher, em sua maioria abaixo dos 30 anos, que
concordaram em participar deste estudo e se mostraram bastantes interessados e
valorizados com a intenção de “alguém” desejar saber o que se passava com eles com
relação a exercício físico e a influência do mesmo no humor geral durante o
período da internação para o tratamento da dependência química.
Todos os sujeitos freqüentavam as
atividades propostas pelo programa de Educação Física durante a internação de
forma assídua e comprometida, realizando as quatro sessões programadas
semanalmente, e iniciaram o programa de tratamento com exercícios físicos a
cerca de dois meses.
Os sujeitos que participaram da
pesquisa faziam uso de drogas ilícitas, como o crack, cocaína e maconha, sendo
que os mesmos permaneciam no hospital em regime de internação.
2.3. Aspectos
éticos
Foram respeitados os aspectos éticos de pesquisa
envolvendo seres humanos (Resolução nº 196/96 – Conselho Nacional de Saúde) e
seguidos rigorosamente os princípios enunciados na Declaração de Helsinki de
20/08/1947 para pesquisas em seres humanos.
Todos os sujeitos que participaram do estudo
assinaram o TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido).
2.4. Instrumento
Foi utilizada nesta investigação a versão
brasileira da Escala de Humor de Brunel (BRUMS – The Brunel of Mood Scale)
desenvolvida por Peter C. Terry e Andrew M. Lane em 2003 e traduzida, com a
autorização dos autores, e validada por Rohlfs. A Escala de Humor de Brunel,
BRUMS, foi desenvolvida a partir da versão abreviada do Profile of Mood
States, conhecido como POMS para adolescentes ou POMS-A, para possibilitar
a medida de estados de humor de populações compostas por adultos e adolescentes
(ROHLFS, 2006).
A escala de humor de Brunel Brums foi desenvolvida
com a intenção de permitir uma rápida mensuração dos estados de humor de
populações compostas por adultos e adolescentes. Esta escala contém 24
indicadores simples de humor como sensações de nervosismo, insatisfação e
disposição, que são percebidas pelo indivíduo avaliado. Os avaliados respondem
à pergunta: “Como você se sente agora?”, tendo como base uma escala de 5 pontos
(de 0 = nada a 4 = extremamente). Os 24 itens da escala compõem seis
subescalas, cada uma contendo quatro itens. As subescalas, dimensões ou fatores
deste instrumento são: Raiva (irritado, zangado, mal-humorado, com raiva),
Confusão (indeciso, confuso, inseguro, desorientado), Depressão (desanimado, deprimido,
triste, infeliz), Fadiga (esgotado, exausto, cansado, sonolento), Tensão (
apavorado, tenso, ansioso, preocupado) e Vigor (animado, com disposição,
alerta, com energia), sendo que a soma das respostas de cada subescala gera um
escore que pode variar de 0 a 16. O BRUMS leva de um a dois minutos para ser
respondido. A perspectiva da análise dos dados proveniente de BRUMS é
qualitativa, ou seja, da percepção do avaliado quanto aos sinais psíquicos
relacionados com variações psicológicas, transformados em dados quantitativos
para que seja acessível a outros profissionais; além disso, os escores brutos
coletados através desta escala também podem ser avaliados em planilhas
próprias. (ROHLFS, 2006).
Para a aplicação da escala, os pesquisadores
explicaram a maneira correta de preencher, e salientaram que a escala voltaria
a ser aplicada após o termino da sessão. Os sujeitos receberam uma cópia da
escala, antes de dar início à sessão de exercícios físicos, o preenchimento foi
realizado de modo individual, tanto antes ou após a sessão, e receberam outra
cópia da escala logo após o término da sessão de exercícios físicos, a escala
foi respondida em aproximadamente três minutos.
2.5. Análise dos dados
Para a análise dos dados foi utilizada a estatística
descritiva através de freqüência, média e desvio padrão. Utilizou-se o
Teste “t” para dados pareados (antes-e-depois) com intervalo de confiança de
90%.
Para a construção das tabelas específicas do
instrumento BRUMS, foi utilizado o programa Excel, tanto na organização dos
dados coletados, como também na mensuração das médias e desvio padrão, além da
realização do teste “t” pareado, referentes às subescalas e individualmente com
os itens.
3.
Resultados e discussão
Uma dimensão que faz parte do complexo subjetivo do
bem-estar é o humor. Durante o tratamento do dependente químico, manter o bom
humor torna-se fator fundamental no processo de recuperação e manutenção da
abstinência.
Para analisar de maneira mais ajustada os dados
adquiridos através da aplicação da escala de BRUMS, primeiramente serão mais
bem descritos os significados de cada uma das seis dimensões mensuradas pelo
teste.
A escala de BRUMS possui 24 itens referentes a
sensações influenciadoras do humor que, em grupos de quatro, compõem seis
subescalas, fatores ou dimensões que são: Tensão (apavorado, tenso, ansioso e
preocupado), Depressão (deprimido, desanimado, triste, infeliz), Raiva
(irritado, com raiva, zangado, mal-humorado), Fadiga (esgotado, exausto,
cansado, sonolento), Vigor (animado, com disposição, alerta, com energia) e
Confusão Mental (indeciso, inseguro, confuso, desorientado). Estas subescalas
têm, para este instrumento, significações específicas. O fator Tensão, neste
instrumento, refere-se à tensão músculo-esquelético que pode não ser percebida
diretamente por manifestações psicomotoras como agitação e inquietação.
A Depressão, neste caso, trata-se de num indicador
de estado de humor depressivo e não de depressão clínica propriamente dita;
representa sentimentos como auto-valorização negativa, isolamento emocional,
tristeza, depreciação ou auto-imagem negativa. A Raiva descreve sentimentos de
hostilidade com base em estados de humor relacionados à antipatia em relação
aos outros e a si mesmo. O fator Vigor particulariza estados de energia,
animação e atividade, e indica um estado de humor positivo. No que diz respeito
à Fadiga, a mesma representa estados de esgotamento, apatia e baixo nível de
energia. Finalmente, o fator Confusão pode ser caracterizado por atordoamento,
sentimentos de incerteza e instabilidade para controle de emoção e atenção
(ROHLFS et al., 2006).
A escala de BRUMS foi aplicada aos participantes
após dois meses de sessões no programa de exercício físico, e que o
preenchimento do questionário aconteceu imediatamente antes do início de uma
sessão de exercícios e repetiu-se imediatamente após o término da mesma, com o
questionamento “Como você se sente agora?”. Após as considerações realizadas
sobre a escala de humor, apresentamos na tabela 1 a descrição das seis
subescalas, antes e após a sessão de exercício físico.
Tabela 1.
Estatística descritiva das subescalas, antes e após a sessão de exercício
físico
|
Antes
|
Depois
|
|
|
Média
|
DP
|
Média
|
DP
|
Teste t pareado de IC 90%
|
Raiva
|
4,33
|
2,58
|
1
|
0,89
|
0,088
|
Confusão
|
6,33
|
1,75
|
1,83
|
1,47
|
0,031
|
Depressão
|
7
|
2
|
2,16
|
1,33
|
0,059
|
Fadiga
|
6
|
2,68
|
1,83
|
0,75
|
0,080
|
Tensão
|
6,16
|
0,98
|
2,33
|
0,82
|
0,021
|
Vigor
|
3
|
1,09
|
9,16
|
1,17
|
0,093
|